FRAGMENTO
A questão é que esse quarto é muito pequeno, essas paredes esquentam de uma maneira insuportável e eu não posso ouvir a voz que vem do exterior porque ela sobe assim, por dentro, e deixa a minha cabeça como se eu fosse voar por cima do pescoço que vibra enquanto produz essa voz que chega, cândida, cotidiana, insuportável, pela porta. Se ela fala ao telefone, se fala com uma vizinha, se conversa com alguém ou mesmo se canta qualquer coisa a voz chega até aqui. À noite só, só à noite eu abro essa janela e, porque ela dorme, tudo fica quieto e eu consigo sentar nesse canto, com o livro aberto, olhando às vezes para o céu preto que, lá de fora, me dá algum conforto. E quando é de manhãzinha, quando o céu de preto passa a ser azul-petróleo e depois de vários outros tons de azul se torna mais claro, quase cinza, antes ainda de o sol aparecer, antes quase que os passarinhos todos comecem a cantar, antes que eu veja o céu cinza, antes que eu veja o sol e, principalmente, antes que eu sinta as pegadas dela no corredor, antes de qualquer movimento brusco pela casa, antes de tudo isso, eu tenho que estar já deitado, dormindo. Porque se não, se eu escuto o chinelo se arrastando sonolento até o banheiro, eu já sinto a vontade de pegar aqueles cabelos com a palma da minha mão fechada, puxar o corpo dela pelos cabelos pela casa, puxar com ela gritando, mas eu não ia nem escutar nenhum dos gritos dela, ia só ver a boca aberta, com aquela expressão de dor, as mãos meio levantadas tentando alcançar a cabeça para livrar os cabelos da minha mão, mas sem conseguir, porque eu ia puxar bem forte e bem rápido, arrastando pela cozinha, pela sala, pelo quintal cimentado, ia dar um puxão ainda mais forte no degrau da lavanderia, aquele degrau grande, de mais de trinta centímetros, ia dar um puxão forte antes de descer o corpo para o quintal, para que o corpo escorregasse bem brusco pelo degrau, e caísse no chão, produzindo, só nesse momento, um som levemente audível, como o de um par de óculos escuros que cai na areia fina da praia. E esse som ia eu ouvir muito rápido, muito rápido olhando para baixo procurando com o canto dos olhos os óculos, para não pisar em cima deles e quebrar alguma das lentes, e depois de descobrir que eles não estão em nenhum lugar por onde meus pés vão passar, só depois dessa inspeção muito rápida, só depois de voltar a não ouvir mais nada, só então eu ia continuar a puxar a mulher pelos cabelos, pelo quintal primeiro, sentindo, quando fizesse o caminho de volta, o sangue das costas dela debaixo dos meus pés, arrastando o corpo que já não faria nem força mais para o lado contrário, só o seu próprio peso, abrindo o portão e arrastando, como um troféu, o corpo, primeiro pelas ruas aqui de perto, pela rua de baixo primeiro, depois pela rua de trás, exibindo o corpo da mulher como um troféu, ensangüentado, se deixando levar mole pelos cabelos. Na verdade, se eu estivesse ainda acordado, eu nem precisaria ouvir os chinelos se arrastando, ou mesmo o barulho dos pés encostando, o barulho do dedão, bem devagarzinho, do dedão direito, ou do dedão esquerdo, o barulho de um dos dois dedões do pé encostando bem devagarzinho no chinelo, no pé esquerdo ou direito do chinelo, tanto faz, eu nem precisaria ouvir o ruído da cama indicando que o corpo já está desperto no outro quarto, que alguns segundos depois o dedão vai tocar o chinelo e depois o pé inteiro vai se acomodar nele e o corpo vai se levantar e começar a arrastar devagar, sonolento, os chinelos pelo quarto, pelo corredor, a caminho do banheiro. Eu nem precisaria ouvir nada. Olhando pela janela para o céu, que ainda nem teria começado a ficar cinza, de repente eu sentiria aqui dentro, eu saberia, sem nenhum sinal mais específico, sem nada que pudesse indicar, mas eu saberia, que dois segundos depois o chinelo começaria a se arrastar pela casa, como se eu ouvisse o barulho dos cílios, como se eu ouvisse a explosão microscópica do pó acumulado durante a noite, como se o vento resultante dessa explosão, da explosão dos dois pares de cílios se abrindo, da explosão de pó, microscópica, como se o vento dessa explosão atravessasse, em milésimos de segundos, o quarto dela, o corredor, passasse pelo buraco da porta do meu quarto e me atingisse, de supetão, dois segundos antes de o dedão do pé, o esquerdo ou o direito, tanto faz, como se esse vento microscópico me atingisse antes de o dedão relar no chinelo e de ela começar a arrastar o chinelo pela casa. Como se esse vento, ao me atingir, me avisasse que ela está prestes a levantar, e me estimulasse a pular sobre os cabelos revoltos dela e puxá-la e.
