Meus pés eram pequenos para a minha altura, eu perdia o equilíbrio e caía.

(“Machucados”, Ana Miranda)

2.2.05

FRAGMENTO

A questão é que esse quarto é muito pequeno, essas paredes esquentam de uma maneira insuportável e eu não posso ouvir a voz que vem do exterior porque ela sobe assim, por dentro, e deixa a minha cabeça como se eu fosse voar por cima do pescoço que vibra enquanto produz essa voz que chega, cândida, cotidiana, insuportável, pela porta. Se ela fala ao telefone, se fala com uma vizinha, se conversa com alguém ou mesmo se canta qualquer coisa a voz chega até aqui. À noite só, só à noite eu abro essa janela e, porque ela dorme, tudo fica quieto e eu consigo sentar nesse canto, com o livro aberto, olhando às vezes para o céu preto que, lá de fora, me dá algum conforto. E quando é de manhãzinha, quando o céu de preto passa a ser azul-petróleo e depois de vários outros tons de azul se torna mais claro, quase cinza, antes ainda de o sol aparecer, antes quase que os passarinhos todos comecem a cantar, antes que eu veja o céu cinza, antes que eu veja o sol e, principalmente, antes que eu sinta as pegadas dela no corredor, antes de qualquer movimento brusco pela casa, antes de tudo isso, eu tenho que estar já deitado, dormindo. Porque se não, se eu escuto o chinelo se arrastando sonolento até o banheiro, eu já sinto a vontade de pegar aqueles cabelos com a palma da minha mão fechada, puxar o corpo dela pelos cabelos pela casa, puxar com ela gritando, mas eu não ia nem escutar nenhum dos gritos dela, ia só ver a boca aberta, com aquela expressão de dor, as mãos meio levantadas tentando alcançar a cabeça para livrar os cabelos da minha mão, mas sem conseguir, porque eu ia puxar bem forte e bem rápido, arrastando pela cozinha, pela sala, pelo quintal cimentado, ia dar um puxão ainda mais forte no degrau da lavanderia, aquele degrau grande, de mais de trinta centímetros, ia dar um puxão forte antes de descer o corpo para o quintal, para que o corpo escorregasse bem brusco pelo degrau, e caísse no chão, produzindo, só nesse momento, um som levemente audível, como o de um par de óculos escuros que cai na areia fina da praia. E esse som ia eu ouvir muito rápido, muito rápido olhando para baixo procurando com o canto dos olhos os óculos, para não pisar em cima deles e quebrar alguma das lentes, e depois de descobrir que eles não estão em nenhum lugar por onde meus pés vão passar, só depois dessa inspeção muito rápida, só depois de voltar a não ouvir mais nada, só então eu ia continuar a puxar a mulher pelos cabelos, pelo quintal primeiro, sentindo, quando fizesse o caminho de volta, o sangue das costas dela debaixo dos meus pés, arrastando o corpo que já não faria nem força mais para o lado contrário, só o seu próprio peso, abrindo o portão e arrastando, como um troféu, o corpo, primeiro pelas ruas aqui de perto, pela rua de baixo primeiro, depois pela rua de trás, exibindo o corpo da mulher como um troféu, ensangüentado, se deixando levar mole pelos cabelos. Na verdade, se eu estivesse ainda acordado, eu nem precisaria ouvir os chinelos se arrastando, ou mesmo o barulho dos pés encostando, o barulho do dedão, bem devagarzinho, do dedão direito, ou do dedão esquerdo, o barulho de um dos dois dedões do pé encostando bem devagarzinho no chinelo, no pé esquerdo ou direito do chinelo, tanto faz, eu nem precisaria ouvir o ruído da cama indicando que o corpo já está desperto no outro quarto, que alguns segundos depois o dedão vai tocar o chinelo e depois o pé inteiro vai se acomodar nele e o corpo vai se levantar e começar a arrastar devagar, sonolento, os chinelos pelo quarto, pelo corredor, a caminho do banheiro. Eu nem precisaria ouvir nada. Olhando pela janela para o céu, que ainda nem teria começado a ficar cinza, de repente eu sentiria aqui dentro, eu saberia, sem nenhum sinal mais específico, sem nada que pudesse indicar, mas eu saberia, que dois segundos depois o chinelo começaria a se arrastar pela casa, como se eu ouvisse o barulho dos cílios, como se eu ouvisse a explosão microscópica do pó acumulado durante a noite, como se o vento resultante dessa explosão, da explosão dos dois pares de cílios se abrindo, da explosão de pó, microscópica, como se o vento dessa explosão atravessasse, em milésimos de segundos, o quarto dela, o corredor, passasse pelo buraco da porta do meu quarto e me atingisse, de supetão, dois segundos antes de o dedão do pé, o esquerdo ou o direito, tanto faz, como se esse vento microscópico me atingisse antes de o dedão relar no chinelo e de ela começar a arrastar o chinelo pela casa. Como se esse vento, ao me atingir, me avisasse que ela está prestes a levantar, e me estimulasse a pular sobre os cabelos revoltos dela e puxá-la e.

2.11.04

ARGUMENTO, ou ainda: Seu nome seria André – decidira – e André escreveria nesse papel, fugindo da realidade fria e convencional do vagão, que

seu nome é André. Ao olhar para frente, vê tantas estrelas que pensa por alguns segundos em contá-las, mas se lembra de um romance, das primeiras páginas de um romance argentino que está em sua mochila, nas suas costas, e de que as estrelas todas são tão brilhantes no negro do infinito que acabariam por sufocá-lo. Decidiu que André está numa praia, uma praia quase deserta, algumas pessoas, alguns casais mais para lá, quase nas pedras que determinam a extensão do lugar. Há, do outro lado, um foco de luz bastante forte, longe, algum empreendimento mais sofisticado. André tem uma tocha consigo, daqui a pouco ele a acenderá para iluminar seu reveillon. Um sonho antigo (ia decidindo), passar o reveillon numa praia deserta. Um sonho da época em que ainda costumava ter sonhos a serem realizados à meia-noite de algum 31 de dezembro.

André (continuava a escrever) está sentado na areia, sobre uma canga azul, os tênis do lado direito, uma champanha. Eram detalhes o que faltava: não sabia ainda (e não sabia se chegaria realmente a saber um dia) se André tinha olhos azuis, usava ou não camiseta, ou trazia meias brancas enroladas dentro dos tênis vermelhos. Que, no entanto, havia um caderno e, sabia-se (ou melhor, era possível – ia decidindo), a vontade de passar aqueles momentos ali, sozinho numa praia quase deserta evitando o contato das estrelas, isso o fazia simular uma outra coisa. Qualquer coisa além daquele real que, apesar de desejado, continuava tão áspero e ia tomando conta, devagar, de seus sentidos.

Um trem (um ônibus?). Talvez fosse num trem (caso a opção ônibus viesse a ser descartada) que, mentalmente, só ele o saberia, só ele, André, e alguém se acaso lesse algum dia aquele caderno (escrevia), talvez fosse num trem, na companhia de um suposto melhor amigo (imaginário), talvez fosse nesse trem, à caminho de uma festa, uma grande festa num grande castelo em Barcelona (tinha de ser, caso não fosse Fontainebleau, Barcelona), talvez fosse nesse trem que passasse o reveillon. Talvez alguma coisa inesperada acontecesse e essa festa nunca chegasse, ainda não havia se decidido quanto a isso. Ou, talvez, simplesmente houvesse aquele caderno onde, no trem em Barcelona (ou num ônibus em algum lugar do Brasil), sozinho (ou ao lado de um de um homem com seus quarenta e poucos anos), ele traçaria pequenos símbolos convencionais e estilizados a partir de algum gênero qualquer, trazendo um novo (quarto?) sentido a tudo isso, áspero e asfixiante apesar da profundeza próxima do mar.

22.10.04

“A vila”. Welcome Center. Americana. 18/09/2004. 16h15m.

Na tela, em perspectiva, galhos negros contra um fundo cinza sob o letreiro do novo filme de Shyamalan anunciam o que se pode traduzir por alguma mesmice borrada pela tensão certeira ou, maldosamente, por alguma imprevisibilidade conhecida de antemão. Então vem o grito. Na tela, agora quase completamente negra, pipocam mais alguns segundos esparsos do letreiro. Enquanto a projetista, atendendo ao chamado, abandona a sessão, enxerga-se apenas o negro. Correndo em meio dele, saímos aos solavancos do cinema. Lá fora, há outros gritos, mas por ser noite feita, enxerga-se ainda apenas o mesmo breu de antes. Pelas janelas abertas por onde veríamos o rio que agora transborda, o vento e os cubos de gelo entram no shopping, atingem rostos e o teto – o vento que causou os estragos e fez com que a sessão fosse interrompida. Sem energia nem luzes de emergência, a noite se faz presente de maneira escandalosamente rápida. Sentado na poltrona do cinema, assistindo ao filme, não haveria critérios de verdade ou de mentira para julgá-lo; ele deveria ser apenas verossímil para convencer. Diferentemente da vida, afinal, a arte nunca é mentirosa. Mas a vida também não é – e disso pouco se fala – verdadeira e tampouco verossímil. Sem o teto cobrindo o shopping, não há estrelas para onde apontar. Shyamalan talvez seja melhor quando do filme se vêem apenas os letreiros e se está num shopping sem teto, inundado pela água, numa cidade tomada completamente pela lama que corre do rio que transborda ao lado.

8.10.04

MEDÚLLA

Ele, sozinho, fechado, quieto, no quarto. Nos cantos, disfarçando o carpete descolado, quatro montes de livros. Ele se levanta do terceiro canto (agora, mas também, por ser sempre a mesma vez, todo o tempo) primeiro o pé direito depois o esquerdo, depois o direito então o esquerdo, pega do segundo monte o livro dos três mosquitos, volta. Senta, em silêncio, no canto, lê. Tira os olhos do livro e tenta se lembrar. Tenta se lembrar mas já não pode, já não é a mesma coisa, está agora sentado, em silêncio, no canto, sozinho, quieto, lia há pouco (mas também já não pode mais se lembrar disso), olha para o dedão do pé, tentando se lembrar de como o dedão se movia, de como ele todo se movia quando levantava o pé direito e depois o esquerdo, de como tinha chegado ao canto oposto e pegado o livro, rápido, tirando-o do monte, tinha já Glosa na mão e não se lembrava de como o tinha trazido até ali, não podia. Levanta-se de novo (agora, mas também, por ser sempre a mesma vez, todo o tempo), tenta acompanhar com os olhos, tenta olhar para si mesmo como se fosse para outro: o homem (esse que imagina ser) levanta a cabeça, ergue o corpo, primeiro o pé direito depois o esquerdo, então o direito e por fim o esquerdo, coloca no monte o livro dos três mosquitos, volta. Mas seus olhos sabem: não há como acompanhá-lo, como enxergá-lo, como imaginá-lo levantando a cabeça, erguendo o corpo, primeiro o pé direito, depois o esquerdo, etc. No quarto, fechado, quieto, os livros, o computador. O homem quereria. Primeiro – outros, eles, antes, podiam – primeiro de uma bolacha molhada no chá brotavam – molhavam, devagar, a bolachinha – brotavam vários volumes, grossos, impressos em letra miúda, vagarosos. Depois, insuportável, o parágrafo, extenso e denso, quinze ou vinte páginas, o tempo perdido. Mas ele, sozinho, quieto, fechado, no quarto, nem antes nem depois, além, lê (apenas lê) e limpa o pó (apenas lê e limpa o pó). Caminha devagar de um lado para o outro. A tela do Word fica, o tempo todo, aberta no computador. Lisa, branca, formada por ondas luminosas que não se borram porque, no teclado, ele não aperta nenhuma tecla, permanece aberta até que o tempo limite se esgota, e invadam o branco os peixinhos que nadam, amarelos, no mar azul da tela de proteção. Ele lê sobre a posição relativa dos três mosquitos, lê sobre os amigos que caminham por San Martín, lê como o pai de Leto se suicida, lê que Washington Noriega (ele mesmo teria escrito En las tiendas griegas?) morre de câncer de próstata, que Elisa e Gato foram seqüestrados pelos militares durante a ditadura argentina, assim como Edith, a mulher do Matemático, e que, por conta disso, o Matemático se exila na Suécia. Ele lê e caminha, sozinho, quieto, fechado, pelo quarto. Senta-se às vezes na cadeira verde e roça um dedo no teclado: o mar azul se desvanece, a página, virtual, branca, toma de novo conta da tela. Não há, no entanto, ele sabe, como enxergá-lo e, muito menos, ele sabe, como escrevê-lo. Antes – outros, eles, antes, podiam – brotavam da recordação os grossos volumes em letra miúda (isso um século atrás). Depois, outros escreviam um parágrafo imenso, quinze ou vinte páginas – estou estando no último degrau, estou estando no penúltimo degrau, estive estando no penúltimo degrau, estou e estive estando no último degrau – um parágrafo imenso, insuportável, de quinze ou vinte páginas, um parágrafo imenso para indicar que os outros, sim, os outros, eles, antes, podiam, mas que ele, agora, aqui, não. Não podia fazer, de uma bolachinha molhada no chá, brotarem os vários volumes grossos escritos com letra miúda. E mesmo assim, não podendo, está lá no terceiro monte a prova contrária, o quarto livro de baixo para cima, La mayor (1969-1975). Os outros, eles, antes, podiam, depois, os outros (outros), mesmo não podendo, escreviam. E hoje, no quarto, apenas, quieto, fechado, quatro montes de livros disfarçam o carpete descolado, ele sabe que não pode nem mesmo descobrir e acompanhar, primeiro o direito e depois o esquerdo, como, alçando-se no espaço, seu próprio corpo funciona. Mesmo quando (outros, antes) não podiam escrever grossos volumes (impressos em letras miúdas), podiam escrever sobre o pé que estava estando no último degrau, estava estando no penúltimo degrau, tinha estado estando no penúltimo degrau, estava e tinha estado estando no último degrau. Outros (os mesmos que não podiam escrever os grossos volumes impressos em letra miúda), esses outros podiam escrever sobre o pé (estando e tendo estado etc.), sobre a foto impressa e repetida sessenta e duas mil vezes, sobre a lua, o frio, a cidade, as lembranças do ônibus na esquina, cheio de turistas (um deles havia tirado uma foto do café da esquina oposta). Apesar de não brotarem da lembrança os grossos volumes etc., eles (os outros, antes) eram capazes de borrar o imenso parágrafo, quinze ou vinte páginas, eram capazes de escrever e não se submetiam à visão do quarto, fechado, apenas, o computador e os livros, as pilhas disfarçando, inúteis, o carpete carcomido. As estantes nas paredes, o computador, ele, no quarto, fechado. Ele, que às vezes chora sentindo aquilo que sente, dentro, como morcegos, mas que não pode – só os outros, antes, eles, podiam (e os outros – outros – depois, mesmo não podendo, escreviam) – dizer. Porque para ele, fechado, quieto, no quarto, o mundo está pronto e ele está fora dele; o mundo está pronto e, para contá-lo, bastam, nas estantes, e nos montes que, nos quatro cantos, disfarçam o carpete descolado, os parágrafos já escritos.

16.9.04

QUERO SER JOHN MALKOVICH

O texto publicado abaixo (como se percebe tão logo se começa a ler) não é meu. É uma tradução caseiríssima (uma brincadeira) de um dos Argumentos publicados por Juan José Saer entre 1969 e 1975. Chama-se “Pensamientos de un profano em pintura”, e foi também publicado nos seus “Cuentos completos” de 2001.

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Reflito mais sobre as molduras que sobre a pintura. Minha predileção: os retábulos e a Via Crucis. Entre gravura e gravura, na Via Crucis, está a parede vazia. Não se valoriza de maneira justa a moldura, que contém a magia patética do sentido sem permitir que ele se derrame pelas margens em direção ao mar de azeite do indeterminado. A moldura nos ensina que Cristo foi crucificado, nos conserva seu sacrifício e nos poupa da confusão de suas vacilações, de sua teimosia e de seu medo. À moldura devemos a perspectiva, os perfis perfeitos, e a vitória mais surpreendente da pintura, a abstração concreta.

O segurança do museu municipal me imagina louco, porque passo meu tempo olhando a parede vazia. Ela parece branca no sentido do vermelho branco: o vermelho, símbolo do calor e da paixão, torna-se invisível à força da abundância e do excesso. Tanto sentido junto se neutraliza e cega, e então nos parece indigno olhar. Como explicar isso aos meus amigos pintores? Toda pintura se apresenta para mim como uma parede branca que foi atenuada, diminuída. A palavra “cortada” também pode servir, como quando a usamos para dizer que se corta o vinho com água. Portanto, a arte da pintura é para mim a arte da redução. Honremos a moldura, porque ela tira do uniforme a variedade da paixão. O arco-íris reina no céu por um momento e depois cai, ao entardecer, nos braços de uma noite mais negra e mais lisa que o fogo.

7.9.04

MULTIVERSO 2

Apertar as teclas causa um barulho quase insuportável. Assim como dor, contradança.

É noite. Silêncio.

Quieto tudo quando não machuco a folha com raiva – a rispidez da tecla.

Pela janela aberta, nada denuncia a presença sempre estranha de alguém do outro lado. Ao contrário, o quadrado branco iluminado no muro apenas me mostra que eu estou aqui, basta um toque no interruptor e surge o breu, a negritude, o espaço aspecto igreja. A mulher, por que há sempre de ser um homem o que ainda não se sabe?, a mulher, que olha muda para a tela da televisão quase no volume mínimo em sua confortável sala de estar do outro lado do muro, não dá por mim, não me percebe aqui. Então finco meu indicador neste “E” como um grito, como um enorme xingo, esta mulher vaca. Talvez ela seja uma enfermeira e durma agora para acordar daqui a quinze minutos para o plantão, seu relógio biológico tão funcional que dispensa até mesmo despertadores. Talvez seja uma puta, e por isso não me escute agora.

Sei que a televisão está ligada, sei que sonambula um pouco quando da sede desesperadora das quatro, que volta ao cochilo tosco no sofá, perdida inconsciente, Ingrid Bergman na última sessão.

Ela existe?

Há o quadrado branco em meu muro até que minha luz esteja. Sou eu que decido. De cuecas, janela aberta, olhar curioso no branco da luz na trepadeira, porta trancada à chave. Qual o tamanho do pau do homem do outro lado? Silêncio todo o tempo, toco o interruptor, breu. Do outro lado não há vida, é apenas o zzzzzzzzz de que o inferno deve ser feito.

14.6.04

Parada

1 milhão. Parece que era maior o número de pessoas que circulava pela Paulista ontem à tarde. “Temos orgulho e família”. Esse era o lema da 8a Parada GLBT de S. Paulo. Apesar de ainda haver letras demais nessa sigla, a pior delas (o “S”) foi finalmente eliminada. Até então minha opinião era a de que esse evento reforçava ainda mais os preconceitos contra os quais, paradoxalmente, tentava lutar. Nunca havia estado lá, como ontem.

Havia crianças de mãos dadas com os pais, velhinhas balançando a bandeirinha colorida no céu, pessoas olhando, muitos homens e muitas mulheres caminhando pela rua. Tão homens e mulheres como todos os outros homens e mulheres que existem por aí. E não se reforçava coisa alguma. Todo mundo simplesmente caminhava, dançava, bebia um pouco. Alguns se beijavam, faziam carinho na pessoa com que dividiam um pedacinho do meio-fio da Paulista. Era possível a quase todos sorrir. Era, afinal, uma festa.

Mas havia microfones. E quando alguém pega para falar das minorias-desprivilegiadas-que-não-vieram-de-chocadeira-e-desfilam-ali-para-mostrar-que-existem – berrando idiotices tais como “S. Paulo é gay. Viva os homossexuais” – quando algum idiota assim acha que é qualificado para pegar um microfone e desembestar a falar bobagem, a coisa perde um pouco da graça. E tristemente se mostra nesses momentos quão preconceituosos podem ser aqueles que se dizem os “defensores da diversidade”...

Óbvio que fazemos parte do não-oficial. Daquilo que, exatamente por isso, ganha uma data comemorativa graças a seu estado de exceção. Vide o dia das mulheres, dos índios, do orgulho gay, da consciência negra... Mas o que menos queremos são palmas por passarmos pela Paulista beijando ou abraçados com aquele que beijamos ou abraçamos cotidianamente entre quatro paredes. Queremos simplesmente passar pela Paulista. Beijando, abraçando alguém ou mesmo sozinhos, com a mão nos bolsos, às quatro da tarde de um dia qualquer ou às sete da noite do dia 13 de junho, durante a Parada.

Que “preconceito” é uma palavra perigosa e traiçoeira já se sabe. Fico me perguntando o que será feito desses militantes verborrágicos que se auto-intitulam representantes do estado de exceção quando perceberem que tentar falar grosso não é o que faz a exceção não ser mais tão exceção assim.