<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213</id><updated>2011-04-21T22:07:33.497-03:00</updated><title type='text'>títere</title><subtitle type='html'>Meus pés eram pequenos para a minha altura,
eu perdia o equilíbrio e caía.&lt;p&gt;(“Machucados”, Ana Miranda)&lt;/p&gt;
</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://titere.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>24</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110737900560535290</id><published>2005-02-02T19:16:00.000-02:00</published><updated>2005-02-02T23:00:27.666-02:00</updated><title type='text'>FRAGMENTO</title><content type='html'>&lt;em&gt;A questão é que esse quarto é muito pequeno, essas paredes esquentam de uma maneira insuportável e eu não posso ouvir a voz que vem do exterior porque ela sobe assim, por dentro, e deixa a minha cabeça como se eu fosse voar por cima do pescoço que vibra enquanto produz essa voz que chega, cândida, cotidiana, insuportável, pela porta. Se ela fala ao telefone, se fala com uma vizinha, se conversa com alguém ou mesmo se canta qualquer coisa a voz chega até aqui. À noite só, só à noite eu abro essa janela e, porque ela dorme, tudo fica quieto e eu consigo sentar nesse canto, com o livro aberto, olhando às vezes para o céu preto que, lá de fora, me dá algum conforto. E quando é de manhãzinha, quando o céu de preto passa a ser azul-petróleo e depois de vários outros tons de azul se torna mais claro, quase cinza, antes ainda de o sol aparecer, antes quase que os passarinhos todos comecem a cantar, antes que eu veja o céu cinza, antes que eu veja o sol e, principalmente, antes que eu sinta as pegadas dela no corredor, antes de qualquer movimento brusco pela casa, antes de tudo isso, eu tenho que estar já deitado, dormindo. Porque se não, se eu escuto o chinelo se arrastando sonolento até o banheiro, eu já sinto a vontade de pegar aqueles cabelos com a palma da minha mão fechada, puxar o corpo dela pelos cabelos pela casa, puxar com ela gritando, mas eu não ia nem escutar nenhum dos gritos dela, ia só ver a boca aberta, com aquela expressão de dor, as mãos meio levantadas tentando alcançar a cabeça para livrar os cabelos da minha mão, mas sem conseguir, porque eu ia puxar bem forte e bem rápido, arrastando pela cozinha, pela sala, pelo quintal cimentado, ia dar um puxão ainda mais forte no degrau da lavanderia, aquele degrau grande, de mais de trinta centímetros, ia dar um puxão forte antes de descer o corpo para o quintal, para que o corpo escorregasse bem brusco pelo degrau, e caísse no chão, produzindo, só nesse momento, um som levemente audível, como o de um par de óculos escuros que cai na areia fina da praia. E esse som ia eu ouvir muito rápido, muito rápido olhando para baixo procurando com o canto dos olhos os óculos, para não pisar em cima deles e quebrar alguma das lentes, e depois de descobrir que eles não estão em nenhum lugar por onde meus pés vão passar, só depois dessa inspeção muito rápida, só depois de voltar a não ouvir mais nada, só então eu ia continuar a puxar a mulher pelos cabelos, pelo quintal primeiro, sentindo, quando fizesse o caminho de volta, o sangue das costas dela debaixo dos meus pés, arrastando o corpo que já não faria nem força mais para o lado contrário, só o seu próprio peso, abrindo o portão e arrastando, como um troféu, o corpo, primeiro pelas ruas aqui de perto, pela rua de baixo primeiro, depois pela rua de trás, exibindo o corpo da mulher como um troféu, ensangüentado, se deixando levar mole pelos cabelos. Na verdade, se eu estivesse ainda acordado, eu nem precisaria ouvir os chinelos se arrastando, ou mesmo o barulho dos pés encostando, o barulho do dedão, bem devagarzinho, do dedão direito, ou do dedão esquerdo, o barulho de um dos dois dedões do pé encostando bem devagarzinho no chinelo, no pé esquerdo ou direito do chinelo, tanto faz, eu nem precisaria ouvir o ruído da cama indicando que o corpo já está desperto no outro quarto, que alguns segundos depois o dedão vai tocar o chinelo e depois o pé inteiro vai se acomodar nele e o corpo vai se levantar e começar a arrastar devagar, sonolento, os chinelos pelo quarto, pelo corredor, a caminho do banheiro. Eu nem precisaria ouvir nada. Olhando pela janela para o céu, que ainda nem teria começado a ficar cinza, de repente eu sentiria aqui dentro, eu saberia, sem nenhum sinal mais específico, sem nada que pudesse indicar, mas eu saberia, que dois segundos depois o chinelo começaria a se arrastar pela casa, como se eu ouvisse o barulho dos cílios, como se eu ouvisse a explosão microscópica do pó acumulado durante a noite, como se o vento resultante dessa explosão, da explosão dos dois pares de cílios se abrindo, da explosão de pó, microscópica, como se o vento dessa explosão atravessasse, em milésimos de segundos, o quarto dela, o corredor, passasse pelo buraco da porta do meu quarto e me atingisse, de supetão, dois segundos antes de o dedão do pé, o esquerdo ou o direito, tanto faz, como se esse vento microscópico me atingisse antes de o dedão relar no chinelo e de ela começar a arrastar o chinelo pela casa. Como se esse vento, ao me atingir, me avisasse que ela está prestes a levantar, e me estimulasse a pular sobre os cabelos revoltos dela e puxá-la e. &lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110737900560535290?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110737900560535290'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110737900560535290'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2005/02/fragmento.html' title='FRAGMENTO'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109942086839876174</id><published>2004-11-02T16:30:00.000-02:00</published><updated>2004-11-02T17:40:19.496-02:00</updated><title type='text'>ARGUMENTO, ou ainda: Seu nome seria André – decidira – e André escreveria nesse papel, fugindo da realidade fria e convencional do vagão, que</title><content type='html'>&lt;p&gt;seu nome é André. Ao olhar para frente, vê tantas estrelas que pensa por alguns segundos em contá-las, mas se lembra de um romance, das primeiras páginas de um romance argentino que está em sua mochila, nas suas costas, e de que as estrelas todas são tão brilhantes no negro do infinito que acabariam por sufocá-lo. Decidiu que André está numa praia, uma praia quase deserta, algumas pessoas, alguns casais mais para lá, quase nas pedras que determinam a extensão do lugar. Há, do outro lado, um foco de luz bastante forte, longe, algum empreendimento mais sofisticado. André tem uma tocha consigo, daqui a pouco ele a acenderá para iluminar seu reveillon. Um sonho antigo (ia decidindo), passar o reveillon numa praia deserta. Um sonho da época em que ainda costumava ter sonhos a serem realizados à meia-noite de algum 31 de dezembro.&lt;/p&gt;
 
&lt;p&gt;André (continuava a escrever) está sentado na areia, sobre uma canga azul, os tênis do lado direito, uma champanha. Eram detalhes o que faltava: não sabia ainda (e não sabia se chegaria realmente a saber um dia) se André tinha olhos azuis, usava ou não camiseta, ou trazia meias brancas enroladas dentro dos tênis vermelhos. Que, no entanto, havia um caderno e, sabia-se (ou melhor, era possível – ia decidindo), a vontade de passar aqueles momentos ali, sozinho numa praia quase deserta evitando o contato das estrelas, isso o fazia simular uma outra coisa. Qualquer coisa além daquele real que, apesar de desejado, continuava tão áspero e ia tomando conta, devagar, de seus sentidos. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Um trem (um ônibus?). Talvez fosse num trem (caso a opção ônibus viesse a ser descartada) que, mentalmente, só ele o saberia, só ele, André, e alguém se acaso lesse algum dia aquele caderno (escrevia), talvez fosse num trem, na companhia de um suposto melhor amigo (imaginário), talvez fosse nesse trem, à caminho de uma festa, uma grande festa num grande castelo em Barcelona (tinha de ser, caso não fosse Fontainebleau, Barcelona), talvez fosse nesse trem que passasse o reveillon. Talvez alguma coisa inesperada acontecesse e essa festa nunca chegasse, ainda não havia se decidido quanto a isso. Ou, talvez, simplesmente houvesse aquele caderno onde, no trem em Barcelona (ou num ônibus em algum lugar do Brasil), sozinho (ou ao lado de um de um homem com seus quarenta e poucos anos), ele traçaria pequenos símbolos convencionais e estilizados a partir de algum gênero qualquer, trazendo um novo (quarto?) sentido a tudo isso, áspero e asfixiante apesar da profundeza próxima do mar. &lt;/p&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109942086839876174?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109942086839876174'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109942086839876174'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/11/argumento-ou-ainda-seu-nome-seria-andr.html' title='ARGUMENTO, ou ainda: Seu nome seria André – decidira – e André escreveria nesse papel, fugindo da realidade fria e convencional do vagão, que'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109841249684192544</id><published>2004-10-22T00:33:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T01:22:21.020-02:00</updated><title type='text'>“A vila”. Welcome Center. Americana. 18/09/2004. 16h15m.</title><content type='html'>Na tela, em perspectiva, galhos negros contra um fundo cinza sob o letreiro do novo filme de Shyamalan anunciam o que se pode traduzir por &lt;i&gt; alguma mesmice borrada pela tensão certeira &lt;/i&gt; ou, maldosamente, por &lt;i&gt;  alguma imprevisibilidade conhecida de antemão&lt;/i&gt;.  Então vem o grito. Na tela, agora quase completamente negra, pipocam mais alguns segundos esparsos do letreiro. Enquanto a projetista, atendendo ao chamado, abandona a sessão, enxerga-se apenas o negro. Correndo em meio dele, saímos aos solavancos do cinema. Lá fora, há outros gritos, mas por ser noite feita, enxerga-se ainda apenas o mesmo breu de antes. Pelas janelas abertas por onde veríamos o rio que agora transborda, o vento e os cubos de gelo entram no shopping, atingem rostos e o teto – o vento que causou os estragos e fez com que a sessão fosse interrompida. Sem energia nem luzes de emergência, a noite se faz presente de maneira escandalosamente rápida. Sentado na poltrona do cinema, assistindo ao filme, não haveria critérios de verdade ou de mentira para julgá-lo; ele deveria ser apenas verossímil para convencer. Diferentemente da vida, afinal, a arte nunca é mentirosa. Mas a vida também não é – e disso pouco se fala – verdadeira e tampouco verossímil. Sem o teto cobrindo o shopping, não há estrelas para onde apontar. Shyamalan talvez seja melhor quando do filme se vêem apenas os letreiros e se está num shopping sem teto, inundado pela água, numa cidade tomada completamente pela lama que corre do rio que transborda ao lado. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109841249684192544?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109841249684192544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109841249684192544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/10/vila-welcome-center-americana-18092004.html' title='“A vila”. Welcome Center. Americana. 18/09/2004. 16h15m.'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109720532588260775</id><published>2004-10-08T01:09:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T01:27:41.220-02:00</updated><title type='text'>MEDÚLLA</title><content type='html'>Ele, sozinho, fechado, quieto, no quarto. Nos cantos, disfarçando o carpete descolado, quatro montes de livros. Ele se levanta do terceiro canto (agora, mas também, por ser sempre a mesma vez, todo o tempo) primeiro o pé direito depois o esquerdo, depois o direito então o esquerdo, pega do segundo monte o livro dos três mosquitos, volta. Senta, em silêncio, no canto, lê. Tira os olhos do livro e tenta se lembrar. Tenta se lembrar mas já não pode, já não é a mesma coisa, está agora sentado, em silêncio, no canto, sozinho, quieto, lia há pouco (mas também já não pode mais se lembrar disso), olha para o dedão do pé, tentando se lembrar de como o dedão se movia, de como ele todo se movia quando levantava o pé direito e depois o esquerdo, de como tinha chegado ao canto oposto e pegado o livro, rápido, tirando-o do monte, tinha já Glosa na mão e não se lembrava de como o tinha trazido até ali, não podia. Levanta-se de novo (agora, mas também, por ser sempre a mesma vez, todo o tempo), tenta acompanhar com os olhos, tenta olhar para si mesmo como se fosse para outro: o homem (esse que imagina ser) levanta a cabeça, ergue o corpo, primeiro o pé direito depois o esquerdo, então o direito e por fim o esquerdo, coloca no monte o livro dos três mosquitos, volta. Mas seus olhos sabem: não há como acompanhá-lo, como enxergá-lo, como imaginá-lo levantando a cabeça, erguendo o corpo, primeiro o pé direito, depois o esquerdo, etc. No quarto, fechado, quieto, os livros, o computador. O homem quereria. Primeiro – outros, eles, antes, podiam – primeiro de uma bolacha molhada no chá brotavam – molhavam, devagar, a bolachinha – brotavam vários volumes, grossos, impressos em letra miúda, vagarosos. Depois, insuportável, o parágrafo, extenso e denso, quinze ou vinte páginas, o tempo perdido. Mas ele, sozinho, quieto, fechado, no quarto, nem antes nem depois, além, lê (apenas lê) e limpa o pó (apenas lê e limpa o pó). Caminha devagar de um lado para o outro. A tela do Word fica, o tempo todo, aberta no computador. Lisa, branca, formada por ondas luminosas que não se borram porque, no teclado, ele não aperta nenhuma tecla, permanece aberta até que o tempo limite se esgota, e invadam o branco os peixinhos que nadam, amarelos, no mar azul da tela de proteção. Ele lê sobre a posição relativa dos três mosquitos, lê sobre os amigos que caminham por San Martín, lê como o pai de Leto se suicida, lê que Washington Noriega (ele mesmo teria escrito En las tiendas griegas?) morre de câncer de próstata, que Elisa e Gato foram seqüestrados pelos militares durante a ditadura argentina, assim como Edith, a mulher do Matemático, e que, por conta disso, o Matemático se exila na Suécia. Ele lê e caminha, sozinho, quieto, fechado, pelo quarto. Senta-se às vezes na cadeira verde e roça um dedo no teclado: o mar azul se desvanece, a página, virtual, branca, toma de novo conta da tela. Não há, no entanto, ele sabe, como enxergá-lo e, muito menos, ele sabe, como escrevê-lo. Antes – outros, eles, antes, podiam – brotavam da recordação os grossos volumes em letra miúda (isso um século atrás). Depois, outros escreviam um parágrafo imenso, quinze ou vinte páginas – estou estando no último degrau, estou estando no penúltimo degrau, estive estando no penúltimo degrau, estou e estive estando no último degrau – um parágrafo imenso, insuportável, de quinze ou vinte páginas, um parágrafo imenso para indicar que os outros, sim, os outros, eles, antes, podiam, mas que ele, agora, aqui, não. Não podia fazer, de uma bolachinha molhada no chá, brotarem os vários volumes grossos escritos com letra miúda. E mesmo assim, não podendo, está lá no terceiro monte a prova contrária, o quarto livro de baixo para cima, La mayor (1969-1975). Os outros, eles, antes, podiam, depois, os outros (outros), mesmo não podendo, escreviam. E hoje, no quarto, apenas, quieto, fechado, quatro montes de livros disfarçam o carpete descolado, ele sabe que não pode nem mesmo descobrir e acompanhar, primeiro o direito e depois o esquerdo, como, alçando-se no espaço, seu próprio corpo funciona. Mesmo quando (outros, antes) não podiam escrever grossos volumes (impressos em letras miúdas), podiam escrever sobre o pé que estava estando no último degrau, estava estando no penúltimo degrau, tinha estado estando no penúltimo degrau, estava e tinha estado estando no último degrau. Outros (os mesmos que não podiam escrever os grossos volumes impressos em letra miúda), esses outros podiam escrever sobre o pé (estando e tendo estado etc.), sobre a foto impressa e repetida sessenta e duas mil vezes, sobre a lua, o frio, a cidade, as lembranças do ônibus na esquina, cheio de turistas (um deles havia tirado uma foto do café da esquina oposta). Apesar de não brotarem da lembrança os grossos volumes etc., eles (os outros, antes) eram capazes de borrar o imenso parágrafo, quinze ou vinte páginas, eram capazes de escrever e não se submetiam à visão do quarto, fechado, apenas, o computador e os livros, as pilhas disfarçando, inúteis, o carpete carcomido. As estantes nas paredes, o computador, ele, no quarto, fechado. Ele, que às vezes chora sentindo aquilo que sente, dentro, como morcegos, mas que não pode – só os outros, antes, eles, podiam (e os outros – outros – depois, mesmo não podendo, escreviam) – dizer. Porque para ele, fechado, quieto, no quarto, o mundo está pronto e ele está fora dele; o mundo está pronto e, para contá-lo, bastam, nas estantes, e nos montes que, nos quatro cantos, disfarçam o carpete descolado, os parágrafos já escritos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109720532588260775?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109720532588260775'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109720532588260775'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/10/medlla.html' title='MEDÚLLA'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109536195810275826</id><published>2004-09-16T16:08:00.000-03:00</published><updated>2004-10-08T00:23:25.580-03:00</updated><title type='text'>QUERO SER JOHN MALKOVICH</title><content type='html'>&lt;p&gt; O texto publicado abaixo (como se percebe tão logo se começa a ler) não é meu. É uma tradução caseiríssima (uma brincadeira) de um dos Argumentos publicados por Juan José Saer entre 1969 e 1975. Chama-se “Pensamientos de un profano em pintura”, e foi também publicado nos seus “Cuentos completos” de 2001.  &lt;/p&gt;

&lt;p&gt;.........................................................&lt;/p&gt;

&lt;p&gt; Reflito mais sobre as molduras que sobre a pintura. Minha predileção: os retábulos e a Via Crucis. Entre gravura e gravura, na Via Crucis, está a parede vazia. Não se valoriza de maneira justa a moldura, que contém a magia patética do sentido sem permitir que ele se derrame pelas margens em direção ao mar de azeite do indeterminado. A moldura nos ensina que Cristo foi crucificado, nos conserva seu sacrifício e nos poupa da confusão de suas vacilações, de sua teimosia e de seu medo. À moldura devemos a perspectiva, os perfis perfeitos, e a vitória mais surpreendente da pintura, a abstração concreta. &lt;/p&gt;

&lt;p&gt; O segurança do museu municipal me imagina louco, porque passo meu tempo olhando a parede vazia. Ela parece branca no sentido do vermelho branco: o vermelho, símbolo do calor e da paixão, torna-se invisível à força da abundância e do excesso. Tanto sentido junto se neutraliza e cega, e então nos parece indigno olhar. Como explicar isso aos meus amigos pintores? Toda pintura se apresenta para mim como uma parede branca que foi atenuada, diminuída. A palavra “cortada” também pode servir, como quando a usamos para dizer que se corta o vinho com água. Portanto, a arte da pintura é para mim a arte da redução. Honremos a moldura, porque ela tira do uniforme a variedade da paixão. O arco-íris reina no céu por um momento e depois cai, ao entardecer, nos braços de uma noite mais negra e mais lisa que o fogo. &lt;/p&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109536195810275826?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109536195810275826'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109536195810275826'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/09/quero-ser-john-malkovich.html' title='QUERO SER JOHN MALKOVICH'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109459209803468515</id><published>2004-09-07T18:20:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T01:19:38.726-02:00</updated><title type='text'>MULTIVERSO 2</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt; &lt;p&gt; Apertar as teclas causa um barulho quase insuportável. Assim como dor, contradança.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;É noite. Silêncio.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Quieto tudo quando não machuco a folha com raiva – a rispidez da tecla.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Pela janela aberta, nada denuncia a presença sempre estranha de alguém do outro lado. Ao contrário, o quadrado branco iluminado no muro apenas me mostra que eu estou aqui, basta um toque no interruptor e surge o breu, a negritude, o espaço aspecto igreja. A mulher, por que há sempre de ser um homem o que ainda não se sabe?, a mulher, que olha muda para a tela da televisão quase no volume mínimo em sua confortável sala de estar do outro lado do muro, não dá por mim, não me percebe aqui. Então finco meu indicador neste “E” como um grito, como um enorme xingo, esta mulher vaca. Talvez ela seja uma enfermeira e durma agora para acordar daqui a quinze minutos para o plantão, seu relógio biológico tão funcional que dispensa até mesmo despertadores. Talvez seja uma puta, e por isso não me escute agora.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Sei que a televisão está ligada, sei que sonambula um pouco quando da sede desesperadora das quatro, que volta ao cochilo tosco no sofá, perdida inconsciente, Ingrid Bergman na última sessão.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ela existe?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Há o quadrado branco em meu muro até que minha luz esteja. Sou eu que decido.
De cuecas, janela aberta, olhar curioso no branco da luz na trepadeira, porta trancada à chave. Qual o tamanho do pau do homem do outro lado? Silêncio todo o tempo, toco o interruptor, breu. Do outro lado não há vida, é apenas o &lt;em&gt;zzzzzzzzz&lt;/em&gt; de que o inferno deve ser feito. &lt;/p&gt; &lt;/span&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109459209803468515?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109459209803468515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109459209803468515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/09/multiverso-2_109459209803468515.html' title='MULTIVERSO 2'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748642385708320</id><published>2004-06-14T23:11:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T01:07:03.856-02:00</updated><title type='text'>Parada</title><content type='html'>&lt;p&gt;1 milhão. Parece que era maior o número de pessoas que circulava pela Paulista ontem à tarde. “Temos orgulho e família”. Esse era o lema da 8a Parada GLBT de S. Paulo. Apesar de ainda haver letras demais nessa sigla, a pior delas (o “S”) foi finalmente eliminada. Até então minha opinião era a de que esse evento reforçava ainda mais os preconceitos contra os quais, paradoxalmente, tentava lutar. Nunca havia estado lá, como ontem.&lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt;Havia crianças de mãos dadas com os pais, velhinhas balançando a bandeirinha colorida no céu, pessoas olhando, muitos homens e muitas mulheres caminhando pela rua. Tão homens e mulheres como todos os outros homens e mulheres que existem por aí. E não se reforçava coisa alguma. Todo mundo simplesmente caminhava, dançava, bebia um pouco. Alguns se beijavam, faziam carinho na pessoa com que dividiam um pedacinho do meio-fio da Paulista. Era possível a quase todos sorrir. Era, afinal, uma festa.&lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt;Mas havia microfones. E quando alguém pega para falar das minorias-desprivilegiadas-que-não-vieram-de-chocadeira-e-desfilam-ali-para-mostrar-que-existem – berrando idiotices tais como “S. Paulo é gay. Viva os homossexuais” – quando algum idiota assim acha que é qualificado para pegar um microfone e desembestar a falar bobagem, a coisa perde um pouco da graça. E tristemente se mostra nesses momentos quão preconceituosos podem ser aqueles que se dizem os “defensores da diversidade”...&lt;/p&gt;  

 

&lt;p&gt;Óbvio que fazemos parte do não-oficial. Daquilo que, exatamente por isso, ganha uma data comemorativa graças a seu estado de exceção. Vide o dia das mulheres, dos índios, do orgulho gay, da consciência negra... Mas o que menos queremos são palmas por passarmos pela Paulista beijando ou abraçados com aquele que beijamos ou abraçamos cotidianamente entre quatro paredes. Queremos simplesmente passar pela Paulista. Beijando, abraçando alguém ou mesmo sozinhos, com a mão nos bolsos, às quatro da tarde de um dia qualquer ou às sete da noite do dia 13 de junho, durante a Parada.&lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt; Que “preconceito” é uma palavra perigosa e traiçoeira já se sabe. Fico me perguntando o que será feito desses militantes verborrágicos que se auto-intitulam representantes do estado de exceção quando perceberem que tentar falar grosso não é o que faz a exceção não ser mais tão exceção assim. &lt;/p&gt; 

&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748642385708320?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748642385708320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748642385708320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/06/parada.html' title='Parada'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748605534605482</id><published>2004-06-10T01:59:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T01:00:55.346-02:00</updated><title type='text'>“Essa morte constante das coisas é o que mais dói”</title><content type='html'>Ouço a trilha sonora de “As horas”, tenho o corpo dolorido pelo resfriado, e tento me aquecer aqui dentro, morrendo devagar.

 

Hoje de manhã menti. Supostamente tendo uma boa causa em mente, acabou sendo inútil. Não, nunca tive nenhum tipo de relação homossexual, não tomei antibiótico nos últimos seis meses, não estive fora de terras brasileiras nos últimos quatro anos. O tio de uma amiga está em coma há 80 dias num hospital da capital. Vem usando sangue de um hemocentro e precisa de vinte e sete doadores. Éramos sete hoje de manhã. Somente três doaram. Estou resfriado: fora da sala da coleta, portanto. Por estar resfriado, que fique claro. Não por “manter relações” com alguém do mesmo sexo, que fique, mais uma vez, claro. Porque sou uma ameaça e meu sangue propaga a morte. Mas disso eles não sabem. Menti. Assinei um documento. Nele se declara mais uma vez a mentira de todos os dias. A mesma mentira a que, na vida real, todas as pessoas saltitantes e felizes que se reunirão no domingo para uma suposta celebração de paz sob um imenso tecido colorido pelas cores do arco-íris se submetem. 

 

Que se queimem essas bandeiras.

 

Lia, no caminho, Caio Fernando Abreu. “Lixo &amp; Purpurina”: “a única magia que existe é a nossa incompreensão”. A única magia. Transmutada, na maioria das vezes, no entanto, pelo terror. 
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748605534605482?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748605534605482'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748605534605482'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/06/essa-morte-constante-das-coisas-o-que_10.html' title='“Essa morte constante das coisas é o que mais dói”'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748596824576133</id><published>2004-06-10T01:57:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:59:28.246-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Meu projeto de mestrado se chama “O eterno retorno do idêntico”, mas na verdade não é sobre o argentino Juan José Saer que estou escrevendo. Estou obviamente escrevendo sobre mim. Coincidentemente, sobre alguma coisa que aparece também na obra dele. Seus livros são quase insuportáveis – e, pelo mesmo motivo, fascinantes. Glosa repete ao infinito a fórmula com que o romance é aberto: “En uno que se moría/ mi propia muerte no vi/ pero en fiebre y geometria/ se me fue pasando el día/ y ahora me velan a mí”. Trabalho, nesses dias em que a Unicamp ainda está em greve, sobre um texto do Freud que trata das pulsões de morte e recebo, pelo telefone, notícias da minha avó, que dias atrás desmaiou na sala de casa e jura que meu avô está vindo do céu para buscá-la (no céu não existem banheiros. É a única explicação. Todos os dias, ali pelas quatro da manhã, minha avó abre o olho e escuta: no banheiro, a descarga dispara sozinha. É o aviso de que meu avô está ali. É o aviso de meu avô de que, dias desses, minha avó já estará com ele no reino dos céus). Mas ela está bem de novo. Um conhecido da minha mãe é que morreu segunda-feira. Uma tia foi ao enterro e narrou tudo em detalhes para minha mãe depois, para desespero dela. Adoro essa tia. O filho mais velho dela foi assassinado há mais de dez anos.     &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748596824576133?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748596824576133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748596824576133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/06/meu-projeto-de-mestrado-se-chama-o_10.html' title=''/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748585393403790</id><published>2004-06-09T00:29:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:57:33.933-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p&gt;Fiz faxina em um dos armários daqui de casa hoje. Desde 1993 alguns dos papéis que eu guardava ali permaneciam quase no mesmo lugar. Eu mudei de casa 5 vezes desde então, mas o pequeno armário sempre me acompanhou. Mudou várias vezes de parede. Dei muitos pitis quando alguém mesmo que sem querer esbarrou nele, corria-se o risco de danificar o que havia ali dentro. Chegaram a apelidá-lo de “o meu altar” (mas não fora erguido em ação de graças a mim, claro – meu ego, afinal, ainda não atingiu esse estágio). &lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt;Eu gastava horas do meu dia em devoção. Nas horas vagas arrumava delicadamente um álbum grande de fotos guardado ali, mas não o mostrava nunca para ninguém, porque podiam amassar suas folhas. Ali, na verdade, não havia só papéis. Havia também cds, fitas em vhs e, as aquisições mais recentes, dvds. Havia 11 anos ali. Metade da minha vida.&lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt;Juntei tudo numa caixa grande, coloquei no maleiro. &lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt;No armário vazio, coloquei um livro novo que comprei essa semana, meu caderno desse semestre, canetas e xerox que ando lendo, meio sem saber ao certo por quê. O armarinho ficou vazio. Não restou nada dele, só a madeira vazia. &lt;/p&gt; 

&lt;p&gt; Não pude deixar de me lembrar de uma das personagem do filme "Mulholland drive", e da caixinha azul dentro da qual estava escondida sua nova (e assustadora) faceta: é que dentro desse armário vazio deve caber uma nova versão disso a que chamo “minha vida”, e gostaria que também fosse impossível imaginar o que se segue a essa reviravolta.&lt;/p&gt;             
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748585393403790?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748585393403790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748585393403790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/06/fiz-faxina-em-um-dos-armrios-daqui-de_09.html' title=''/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748560835656916</id><published>2004-06-06T20:35:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:53:28.356-02:00</updated><title type='text'>À BEIRA DO MAR ABERTO</title><content type='html'>¿qué es entonces la verdad? una hueste en movimiento de metáforas, metonimias, antropomorfismos, en resumidas cuentas, una suma de relaciones humanas que han sido realzadas, extrapoladas y adornadas poética y retóricamente y que, después de un prolongado uso, un pueblo considera firmes, canónicas y vinculantes; las verdades son ilusiones de las que se ha olvidado que lo son; metáforas que se han vuelto gastadas y sin fuerza sensible, monedas que han perdido su troquelado y no son ahora consideradas como monedas, sino como metal. (F. Nietzsche, “Sobre verdad y mentira”)

&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748560835656916?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748560835656916'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748560835656916'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/06/beira-do-mar-aberto.html' title='À BEIRA DO MAR ABERTO'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748548947723171</id><published>2004-06-02T01:51:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:51:29.476-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Grande bosta.

É uma e meia da manhã, tenho fome, meu abdômen dói, há uma semana não relo em folha alguma, não faço mais nada da vida de novo. 

Tenho uma bolsa que me paga para isso.

Os dias são, depois de alguns meses de exceção, assim mais uma vez: tenho sono até as dez da noite, depois desperto e não consigo mais dormir. Vou à tarde à academia e o abdômen (que, apesar da academia, cresce indefinidamente) dói por isso. Tenho ânsia.

Meu pão de queijo está pronto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748548947723171?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748548947723171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748548947723171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/06/grande-bosta_02.html' title=''/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109460457325250645</id><published>2004-05-28T21:47:00.000-03:00</published><updated>2004-09-07T21:49:33.253-03:00</updated><title type='text'>RECEITA ÓBVIA</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;p&gt; -         500 fichas preenchidas em 500 empresas diferentes (cargo pretendido: ajudante de faxineiro)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;-         duas horas de sono em cada praça, durante o dia (até que um agente apareça e com seu bastão nos tire de cima da beleza das flores)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;-         três olhos (para que nos mantenhamos, principalmente durante a noite, quando vagamos pelas ruas)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;-         dois baldes (usa-se a a água gelada de alguma torneira pública para o banho de domingo)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;-         uma companhia (que ajude a esconder os baldes, para que não nos levem também eles)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;-         alguma crença em deus
(para que, no caso da falta do terceiro olho, ele nos mantenha)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;-         e, só no final, uma mont-blanc (para registrar o resultado) &lt;/p&gt;&lt;/em&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109460457325250645?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460457325250645'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460457325250645'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/05/receita-bvia.html' title='RECEITA ÓBVIA'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748539581847780</id><published>2004-05-26T01:47:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:49:55.820-02:00</updated><title type='text'>CREDO QUIA ABSURDUM</title><content type='html'>&lt;p&gt;Katherine Mansfield: “Por que nos sentiremos tão diferentes durante a noite? Por que será tão interessante estarmos acordados enquanto todos os outros homens dormem? É tarde – é muito tarde.” &lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt;Quatro e meia da manhã, na verdade. Ouço "Imagine" e leio "Mal-estar na civilização". &lt;/p&gt;

 

&lt;p&gt;O óbvio, como sempre: há mesmo algo de errado nisso, mas aceito minha porção inibida de libido e teço genuflexões com um joelho dolorido: somos todos civilizados, católicos e sonhamos ainda, lá no fundo, com velhas possibilidades comunistas.&lt;/p&gt;

 

&lt;p&gt;Heine: “Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos – mas não antes de terem sido enforcados”. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748539581847780?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748539581847780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748539581847780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/05/credo-quia-absurdum_26.html' title='CREDO QUIA ABSURDUM'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109460425223849436</id><published>2004-05-25T21:43:00.000-03:00</published><updated>2004-09-08T16:09:27.360-03:00</updated><title type='text'>ELE ME DISSE ALGUMAS PALAVRAS</title><content type='html'>Sem rodeios: eu tinha um primo que montava em bois. Éramos da mesma idade. Um dia desses ele cresceu, casou, teve um filho, brigou com a mulher (parece que bateu nela), fez as pazes. Brigou mais umas vezes e fez de novo as pazes. Vai ver eles se gostavam. Se gostavam nada, só precisavam um do outro – assim como um só frango basta para as galinhas todas do galinheiro.



Então ele morreu.



Fui ver. Estava sorrindo para mim. Irônico, me olhava de cima, com aquele seu rosto redondo de sempre. Quando éramos bebês eu tinha o rosto alinhado nas fotos, e o dele já era redondo (eu depois recortei esse rosto redondo de todas as minhas fotos: eu era uma linhazinha de nada ao seu lado, que ficava redonda se no entanto ele saía delas).

Ele estava sorrindo e me disse algumas palavras. Não entendi. Puseram o tampão e atarraxaram. Ficou tudo escuro e eu demorei para morrer. Acho que foi só uns três dias depois.
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109460425223849436?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460425223849436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460425223849436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/05/ele-me-disse-algumas-palavras.html' title='ELE ME DISSE ALGUMAS PALAVRAS'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748520054298219</id><published>2004-05-24T01:44:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:46:40.543-02:00</updated><title type='text'>FUTILIDADE</title><content type='html'>&lt;p&gt;Passar um domingo sobre Antoine Berman, com nojo do réptil da capa do livro, lendo alguma coisa sobre a Bildung dos românticos alemães (um pouco de tradução para uma vida agora tão atormentada pela problemática da outra – e desconhecida – língua).&lt;/p&gt;

 

&lt;p&gt;Ouvir Belle &amp; Sebastian (“The wrong eyes to go searching behind”) e baixar um vídeo da re-Invention Tour, navegando por páginas de empresas aéreas tramando a noite de 8 de setembro próximo, em Lisboa.&lt;/p&gt;

 

&lt;p&gt;Não responder emails propositalmente, para falar ao telefone sobre como pode ser possível tornar os percalços ilusórios. Os alheios.  &lt;/p&gt;

 

&lt;p&gt;Eu não devia mesmo falar sobre isso hoje. Assim como nunca. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748520054298219?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748520054298219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748520054298219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/05/futilidade.html' title='FUTILIDADE'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748504138231419</id><published>2004-05-12T01:42:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:44:01.383-02:00</updated><title type='text'>KRAFT</title><content type='html'>&lt;p&gt;Há algum tempo (certo tempo, claro) Hipódamo dividiu o espaço em quadrados, e esses quadrados vieram depois a ser os nossos conhecidos quarteirões. Para que o homem se relacionasse decentemente com o meio. A rua então se civilizou. Mas depois isso não bastava mais; criaram, debaixo dos supermercados (esses que, como todas as mega stores de hoje, também são uma criação posterior à de Hipódamo), grandes caixas de cimento vazias, populadas certas noites por pessoas que, sem mais possibilidade de existência nas ruas, precisam buscar ali, ao som de black music, seja lá o que for – aquilo que cada uma delas imagina ser possível um dia.&lt;/p&gt;

 

&lt;p&gt;E é assim. Foi para isso que saímos de casa. &lt;/p&gt;

 

&lt;p&gt;Mas então foi diferente. Dentro da caixa preta não havia ninguém. Só mesmo nós. Seis pessoas se entreolhando. O globo girando, refletindo estilhaços da luz vermelha da parede nas caras perdidas e também, como o lugar, vazias.   &lt;/p&gt;

 

&lt;p&gt;O fim do cigarro teve dessa vez, mais ainda do que Mário Quintana podia supor, uma tristeza de fim de linha. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748504138231419?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748504138231419'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748504138231419'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/05/kraft_12.html' title='KRAFT'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109460386453797237</id><published>2004-05-06T21:37:00.000-03:00</published><updated>2004-09-07T21:37:44.536-03:00</updated><title type='text'>OUVINDO “GUILTY”, A SÉTIMA FAIXA DA TRILHA SONORA DO FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAN,</title><content type='html'>ela morreu.

No chão do banheiro. Depois, eu desesperado (a música; o silêncio dentro), um pedaço da porta caída em sua cabeça. O buraco; os vizinhos e as caras redondas dos vizinhos. A lasca. O suco escuro.

Uma perna sobre a privada. O rádio alto, a tecla de repetição automática.

Dois dias.

Com a cabeça torta. Da boca semi-aberta nem mesmo um pouco de saliva no chão. As mãos comprimidas e as veias silentes por causa dos comprimidos.

Sem verbos: só mesmo as partes duras do corpo, e o meu corpo gelado no dela
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109460386453797237?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460386453797237'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460386453797237'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/05/ouvindo-guilty-stima-faixa-da-trilha.html' title='OUVINDO “GUILTY”, A SÉTIMA FAIXA DA TRILHA SONORA DO FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAN,'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748482098095273</id><published>2004-05-03T01:37:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:40:20.980-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p&gt;Sexta Marcelo, Ricardo e eu vimos Kill Bill vol. 1: fantástico. Desconte-se, evidentemente, o velho idiota da fileira de trás, capaz dos comentários mais estúpidos, e as recentes (e inúmeras) propagandas desrespeitosas do Kinoplex.&lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt;Na saída, enumerávamos alguns dos filmes com que o diálogo ali é explícito. Entre os mais óbvios, Matrix, Karate kid (uma moça que na saída ouviu o Ricardo falando do Daniel Sam riu...), Hannibal, O tigre e o dragão, a insuportável sirene de Hitchcock em Marnie, a ladra, A laranja mecânica, inúmeros filmes B insuportáveis de samurai, os desenhos japoneses, as séries cinematográficas da década de 40 e etc. etc...&lt;/p&gt; 

 

&lt;p&gt;Perdemos neuróticos alguns braços e esguichamos sangue rindo ao som de canções de faroeste e mexicanismos – eu ainda ria, antes de dormir, ouvindo a voz do oriental que tinha um sotaque inglês “perfeitíssimo”, e sentia ainda um daqueles pingos de sangue da ponta da espada no rosto. 
&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748482098095273?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748482098095273'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748482098095273'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/05/sexta-marcelo-ricardo-e-eu-vimos-kill.html' title=''/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109460340083973927</id><published>2004-05-02T21:28:00.000-03:00</published><updated>2004-09-08T16:14:56.570-03:00</updated><title type='text'>UMA VELHA</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;p&gt;Até então ninguém tinha visto essa mulher por aqui. Depois, durante um tempo, parece que ela se sentia bem por esses lados, a indecente. Voltando da missa a gente tinha que usar a sombrinha pra não roçar nela. E até os homens do bar respeitavam a descarada. Ela era o demônio encarnado. As crianças, claro, tinham medo dela. Não saíam mais de casa. E a gente nem deixaria, de qualquer maneira. Até que depois de um tempo levaram ela embora. Os policiais vieram buscar. Ela era que nem um cachorro que não tem coleira e anda pelas ruas livre, ela não podia ficar por aí, atrapalhava as coisas todas. E a educação dessas crianças com essa velha por perto, meu deus? O certo é que tudo se deu como tem que se dar, e agora acabou.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas ela não queria não. Ela apareceu um dia, se instalou aí pelas calçadas e ficou até que, benza deus, vieram levá-la. Ela foi embora desdizendo todos os nomes. E imagina ela ficar: ela teve coragem de fazer aquilo, vai saber o que mais podia fazer.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Foi logo no dia que apareceu: os homens estavam todos, como todo dia, bebendo tranqüilos no bar, fazendo as gracinhas corriqueiras que fazem com uma menininha ou outra, essas coisas que não fazem mal pra ninguém. É até engraçado de se ver de vez em quando. Mas aí ela apareceu. Inteirinha roxa. Não se sabe de onde tirava essa tinta, se escondia em algum lugar, ninguém nunca viu. Mas ela sempre estava roxa enquanto ficou aqui, do cabelo ao pé. E usava uma camisona roxa, de botões. E vinha se tocando: os botões entreabertos, dedos no bico do peito e embaixo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Os homens olhando. Quietos, claro.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Olhando pra ela.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ela passou pela porta do bar, e alguém teve a idéia de fazer o gracejo. Foi aí que ela se virou, a petulante – e deve ter sido aí que decidiu ficar –, parece que a baba escorria da boca, o Pedro me contou. Segurando o peito, exibiu pela primeira vez a voz, e por que tinha vindo: era o que eles queriam? mostraria tudo o que eles queriam então, e até mesmo mais, que eles não eram de nada, esses cornos – ela disse um monte daquelas palavras. Levantou a camisa e mostrou sua coisa então: roxa também – o Pedro me contou que abria bem a coisa, a lá-de-baixo, com os dedos bem abertos. E riu alto, o demônio. Deus seja louvado que criança nenhuma viu isso, meu deus. Parece que a Dita por azar também viu. Estava na rua. E ela podia tudo: virou de costas e mostrou o que-fica-atrás pros homens, todos calados, com o cigarro na boca e o copo pendente na mão, olhando. E ela ria, queria mesmo era calar a boca deles. De costas, as mãos lá. E ela ficou por aqui, acredita? Ficava ali na esquina, todo o dia olhando pros lados e rindo, às vezes ficando quieta, mas sempre com as mãos tortas de fazer nojeira. Era uma pouca vergonha. Tudo isso foi uma provação, meu deus, uma grande provação. Mas aí ela foi embora, parece que foi a Cidinha que fez o telefonema, porque deus é pai e isso não podia continuar não, deus é pai.&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109460340083973927?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460340083973927'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460340083973927'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/05/uma-velha.html' title='UMA VELHA'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-110748425791512003</id><published>2004-04-28T01:29:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:30:57.920-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Estou com sono e "Totem e tabu" não termina. Os filhos mancomunados devoram o pai e aí se fodem – porque é óbvio que querem todas as mulheres cada um só para si. Brigam. E é nesse meio tempo que surge o remorso, conhecido também por 'civilização'. A quatro quarteirões amigos dançam black-music. Ligaram, eu é que não quis. Preferi, pedante, visitar o Letes com Platão e – além dos mecanismos dos sonhos freudianos que reaparecem no "Totem" – me deparar com um sonho de Cipião, em Cícero. Devem estar acontecendo muitas coisas importantes por aí agora. Eu olho para a página 149. Também cheguei a tentar de novo mas já abandonei por hoje o Schleiermacher, porque não adianta mesmo, não entendo mais de cinco páginas por dia – até julho o texto termina. Ou talvez como uma sessão psicanalítica – fui de novo ao SAPPE hoje –, nunca termine. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-110748425791512003?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748425791512003'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/110748425791512003'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/04/estou-com-sono-e-totem-e-tabu-no_28.html' title=''/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109460310990042829</id><published>2004-04-26T21:24:00.000-03:00</published><updated>2005-02-02T19:11:21.766-02:00</updated><title type='text'>12</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:times new roman;color:#ff0000;"&gt;Logo ali, a cinco ou seis passos da porta de casa, se eu tocasse mais uma vez a campainha dela e ela abrisse a porta, eu veria de novo tudo vermelho: a cozinha primeiro, a sala, depois o pequeno corredor que dá para o banheiro e para o quarto. Mas não vou mais vê-la. Sei que na parede ficam seus quadros, também vermelhos. Não é pintora apenas, também escreve (em vermelho, claro). Toca. Não sei se bebe, mas dá vexame. Noite dessas cantou para o guarda-noturno com voz rouca que é mais macha que muito homem. Na maioria das noites canta composições próprias. Mas para o guarda seus desejos falaram mais alto, e não teve tempo para inventar alguma coisa rápido. Se entende fácil o que esperava desafiando-o e propondo o machismo maior que o de muito homem solto por aí. Porque ela não está solta, está presa. Nessa casa vermelha onde não quero mais entrar. Não sai nunca do prédio. Treme quando fala comigo e com os outros vizinhos. Parece que somos (indecifravelmente) os únicos seres em quem ela confia – durante o dia, pelo menos, e nos momentos em que não canta para os rapazes que passam (sem saber de nada, coitados!) embaixo de sua sacada. Ela me chama sempre: quer sexo e que eu comente as pinturas, mas é impossível. O sexo sabe-se o porquê. Quanto a comentar as pinturas – como é que vou falar para ela? Me deu uma. Está lá no meu guarda roupa. Ela também tem cachorros que latem quando chego em casa, e me visita aos domingos agora que sabe que não vou mais lá. Dou bombons e ela vai embora. Se diz uma artista. E é mesmo, vai saber.&lt;/span&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109460310990042829?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460310990042829'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460310990042829'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/04/12.html' title='12'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109460297885393296</id><published>2004-04-25T21:19:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:27:11.693-02:00</updated><title type='text'>O SHOW DE TRUMAN</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;
&lt;i&gt;(Num dos seis textos de Trouxa frouxa intitulados “Cromo”, Vilma Arêas coloca sentada na frente da televisão a personagem que, entre muitas coisas, “num domingo de Páscoa viu um mar de braços lutando pelo pão”.)&lt;/i&gt; Então: onde você desce? Onde? Ah, tá. Sabe o que é, cara?
&lt;i&gt;(E foi mesmo assim que tudo começou: sentada em casa, viu inúmeras mãos incrustando em braços suas unhas para chegar mais perto – e muitas vezes em vão – do pão.)&lt;/i&gt; O negócio é o seguinte: tô vendo que tem um mano ali no fundo de olho em você, entendeu? E tô sacando que ele vai tentar folgar com você. E então, cara, eu posso ajudar você aí, tá ligado?
&lt;i&gt;(A personagem “ouviu Altman explicando aos interessados a semelhança entre seu novo filme e uma rosa”. Mas não pensou, então, que a televisão pudesse falar de si: falava de infinidades de magros braços humanos lutando por comida: falava de flores e filmes.)&lt;/i&gt; Mas então: você tem mesmo que descer na Avenida? Putz, cara, é porque é complicado... Porque eu posso mesmo ajudar você, cara, mas não na Avenida, porque na Avenida não rola, entendeu?
&lt;i&gt;(Não que essa personagem fosse burra ou qualquer coisa assim – sempre ficara protegida, só isso. E por mero acaso, claro. Mas tão protegida que depois de desligar o aparelho, perfumar-se e sair de casa, esqueceu as ondas formadas pelos braços – bastava para se defender guardar os cartões de crédito no fundo da gaveta.)
&lt;/i&gt; Mas: seguinte: você não pode descer mais lá para frente?
&lt;i&gt;(Foi no ônibus que os braços lhe apareceram vigorosos – vigorosos pela fome.)
&lt;/i&gt; Você mora no Jardim São Marcos? Na Avenida mesmo, cara? Putz... Então tá complicado para você. Fica esperto, então, cara. Porque eu posso te ajudar na boa, cara, mas não aqui.
&lt;i&gt;(A personagem, atônita, viu-se na televisão: escutando a voz do moço, desesperada e sem ação dentro do ônibus lotado, olhando para trás e encontrando o olhar fixo do outro.)
&lt;/i&gt; Desço com você do busão e na boa te livro do mano, cara. Conheço essa gente. Não dá? Puta, cara, tô tentando te ajudar, fica esperto então, cara. Tô tentando te ajudar.
&lt;i&gt;(Ao ver os dois na porta traseira do carro, esperando-a para saltar do ônibus com ela, o sangue ainda corria pelas suas veias. Já se sabe o depois.)
&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;
&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8236213-109460297885393296?l=titere.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460297885393296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8236213/posts/default/109460297885393296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://titere.blogspot.com/2004/04/o-show-de-truman.html' title='O SHOW DE TRUMAN'/><author><name>Davis</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16926868595361524018</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://geocities.yahoo.com.br/infiltratorbr/12.JPG'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8236213.post-109460235905923987</id><published>2004-04-24T21:11:00.000-03:00</published><updated>2005-02-04T00:24:11.146-02:00</updated><title type='text'>O:SS:O</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Ele tinha um piercing sobre o olho direito, e usaria sua ponta para furá-lo.&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;
&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Sua camiseta amarela exibia um ideograma chinês cujo significado, em português, podia ser representado pela palavra “amor”. Ele, na verdade, era contraditório: odiava os orientais e por isso ostentava o ideograma sobre a camiseta amarela. Mais ainda: nunca conheceria o amor.&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;
Na capital paulista, fixava um ponto: o sinal fechado, ainda não podia atravessar: era domingo, tinha nas costas uma mochila com roupas velhas, maquiagem e máscaras. Suaria dali a pouco, contorcendo-se para se transmutar no velho moral e cego que interpretaria.
Que se use o futuro do pretérito por ele: porque nunca o interpretaria. Furaria seu olho primeiro. E não só.
Na manhã do domingo, antes da viagem e depois de abandonar o amante pela última vez na rodoviária, lhe apareceu mais uma vez o nojo. E foi por causa do nojo cotidiano que abandonou o seu amante: não o amava: penetrava seu corpo por orgulho apenas – para ter alguém para chorar por ele depois.
Ainda não sabia, no entanto, que a falta que não faria no outro lhe exigiria o olho direito. Porque o outro não sofreu: não havia sido verdadeiro: queria dele o mesmo apenas: estuprá-lo e gozar por ele, não havia perigo, não havia problema: iria embora sem mágoas.
Então isso não foi possível suportar. Em S. Paulo, olhos fixos no homenzinho verde do semáforo, desatarraxou devagar o piercing (a camiseta amarela), pensou no velho coxo ainda desfeito em sua mochila, esperando pelo seu corpo e sua seiva para torná-lo O Velho, e pegou o piercing na ponta dos dedos. Como se fosse fazer do seu rosto a máscara principal, o momento do ápice e do maior distanciamento: usou seu piercing como se usa lápis colorido, e extraiu do olho a cor que lhe borraria a cara imprimindo-lhe a textura viva daquilo que nunca seria.
Não gritou. Cegou apenas. E fechou o outro olho tão apertado a ponto de não conseguir ouvir os barulhos do freio que não impediria seu soterramento naquela rua da capital: e descobriu então: na hora da estrela: embaixo da roda: amava o amante sobre todas as coisas. O grande nojo vermelho fora sua maneira de sempre saber disso.&lt;/span&gt;

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